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Ateno
Todos sabem o que vem a ser prestar ateno. Ao receber esta ordem, o interlocutor saber o que deve fazer
para prestar ateno e tambm que perceber melhor os estmulos aos quais estiver prestando ateno.
Com isto talvez deixe de perceber alguns outros estmulos presentes (aos quais no estar prestando 
ateno). Mas, afinal, o que, exatamente,  esta ateno, que parece atuar to diretamente sobre nossa 
capacidade de perceber? 
Nos primrdios da Psicologia cientfica, na mudana do sculo, os manuais de Psicologia sempre traziam 
captulos dedicados ao estudo da ateno. Mas, com a difuso do behaviorismo a ateno deixou de ter a 
antiga importncia. Segundo os behavioristas, ateno no  um comportamento, podendo ser inferida do 
comportamento global apresentado pelo animal. Se um animal respondeu a um estmulo, conclui-se que esteve 
atento a ele. Mas a ateno no pode ser definida, simplesmente, como a capacidade de responder a um 
estmulo, ou perceb-lo. Vejamos, por exemplo, o caso do estudante que est lendo um livro e liga o rdio. 
micialmente, ele est lendo o texto e compreendendo o que l. De repente, o rdio toca uma msica da 
qual gosta muito. Ele comea a acompanhar mentalmente a letra. A despeito disto, continua lendo. Os 
estmulos que o estudante percebe continuam sendo os mesmos: de um lado, as palavras do texto; do outro, a 
msica. Mas algo mudou completamente: o texto lido deixou de ser compreendido, pois sua ateno se 
deslocou do texto para a msica. No  possvel prestar ateno a um grande nmero de estmulos ao mesmo 
tempo. Por isto, em geral no o fazemos. Quando estamos lendo, o estmulo principal deve ser a informao 
visual; a informao auditiva do rdio deve ser, no mximo, um fundo musical, como o avio que passa, as 
crianas que gritam na rua, o peso do relgio de pul so 
nosso prprio peso sobre a cadeira e a mordida do mosquito. Isto nos faz voltar ao que foi dito no captulo 1, 
onde mencionamos que h um limite na quantidade de informao que pode ser processada ao mesmo tempo 
pelo nosso crebro, o que corresponde ao limite do canal de transmisso de informao. 
3.1. Vigilncia 
Chamamos de vigilncia ao estado de ateno mantida. Experimentalmente, isto , em laboratrio, costuma-se 
estudar a vigilncia, dando ao sujeito a tarefa de detectar um sinal que ocorre de tempos em tempos. Os 
experimentos clssicos utilizam o teste do relgio de Mackworth, onde o sujeito observa o movimento do 
ponteiro de um relgio que avana aos saltos. Os saltos so iguais, mas, de tempos em tempos, ocorre um 
salto duplo ao qual o sujeito deve responder apertando uma tecla. Este estmulo  muito bvio, de modo que 
qualquer falha de reconhecimento  uma questo de ateno e no de deteco. Observa-se que, aps 
aproximadamente 20 minutos, o desempenho do sujeito passa por um mximo, estabilizando-se logo em 
seguida num valor ligeiramente inferior. Quanto mais simples  a tarefa, mais rapidamente  atingido o mximo, 
e menor ser o nvel de desempenho mdio estabilizado que ocorre em seguida. No entanto, este resultado no 
pode ser generalizado para todas as tarefas que envolvem vigilncia. Pois, quando esto envolvidos vrios 
estmulos e respostas diferentes, a queda de desempenho no ocorre aps ter sido atingido um desempenho 
mximo. 
Outros estudos mostram que a vigilncia muda com o estado de excitao do sujeito. Se o sujeito ouve, por 
exemplo, um sinal acstico, um pouco antes do estmulo visual que deve detectar, seu desempenho ser 
significativamente melhor. O desempenho atingir o mximo se o estmulo de aviso ou de excitao for 
apresentado entre 200 a 500 m antes do estmulo a ser detectado. Isto demonstra que a ateno  mxima dado 
um certo grau de excitao do organismo. Este fato levou  formulao da lei de Yerkes-Dodson, que estipula 
que o desempenho tem uma relao de Uinvertido com o nvel de excitao do sujeito, conforme  
esquematizado na figura 3.1. 
3.2. Ateno seletiva 
Como j foi dito no item anterior,  difcil prestar ateno a um grande nmero de estmulos simultaneamente. 
Apesar disto, podemos, na maioria das vezes, escolher prontamente a que ns queremos prestar ateno. A 
isto chamamos de ateno seletiva. 
Na viso, a seleo se d, basicamente, atravs do posicionamento de nossos olhos, quer pela orientao de 
nosso corpo ou cabea, quer pelo direcionamento direto de nossos olhos. Em geral, prestamos ateno que 
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Nivel de excitao 
Figura 3.1. O desempenho numa tarefa perceptiva aumenta com o nvel de excitao geral at atingir um mximo. Com nveis 
de excitao ainda maiores, o desempenho decresce. Esta relao  conhecida como Lei de Yerkes-Dodson. 
les estmulos visuais focalizados na regio central de nossas retinas, a fvea. Na verdade,  muito difcil prestar 
ateno a estmulos que se encontram na periferia de nosso campo visual. Olhe para a figura 3.2, mantendo o 
olho direito tapado com a mo direita, fixe o X e tente contar o nmero de pontos existentes em cada um dos 
agrupamentos  esquerda. Voc notar que esta tarefa se torna mais difcil  medida que os agrupamentos de 
pontos esto mais  esquerda. Alm disso, ser difcil manter seu olhar fixo no X, pois o seu olho escapar 
repetida e involuntariamente para a esquerda. Empenhado na tarefa de contar os pontos, seu crebro sinalizar 
que os agrupamentos de pontos so o foco de ateno e far com que seu olho se volte diretamente para eles. 
A tendncia de voltar o olho para aquilo a que se deseja prestar ateno corresponde ao reflexo de orientao 
visual. Ele no se limita ao movimento do olho, como neste exemplo, mas tambm leva a uma reorientao de 
toda a cabea ou corpo. 
Os experimentos clssicos de ateno seletiva visual so feitos instruindo sujeitos para procurarem 
determinadas letras em listas extensas, nas quais as letras aparecem em ordem casual. Observa-se, ento, o 
movimento de rastreio dos olhos, cobrindo todo o conjunto de letras apresentadas. Com treino, a velocidade 
com que a tarefa  executada pode aumentar de 6 a 10 vezes. Numa tarefa destas fica comprovado que a 
ateno  seletiva, pelo fato de o sujeito saber relatar unicamente as letras que foi instrudo a procurar, e nada 
sobre as outras letras existentes (s quais no prestou 
Figura 3.2. Mantendo o olho direito coberto, fixe o X com o olho esquerdo e procure discriminar o nmero de pontos em cada 
uma das distncias, a, b,...f, sem desviar seu olhar do X. Sem dvida, no  uma tarefa fcil! 
ateno). As outras letras parecem ao sujeito apenas uma espcie de fundo desfocalizado. Desfocalizado no 
visualmente, mas cerebralmente. 
Outros pesquisadores, para estudar a seletividade da ateno, empregaram um taquistoscpio, aparelho que 
permite apresentar, controlada- mente, estmulos visuais por fraes de segundos. Nestes estudos, o sujeito  
convidado a reconhecer letras apresentads taquistoscopicamente, assinalando-as numa folha de respostas. 
Em geral, os sujeitos no marcam mais que 3 ou 4 letras com acerto, independentemente de quantas foram 
apresentadas (3 a 12 letras). Parece, pois, que num experimento destes a gama de apreenso dos sujeitos no 
ultrapassa 4 letras. Estes dados experimentais no nos permitem saber se  a ateno do sujeito que  limitada 
 percepo de 4 letras ou se a capacidade de sua memria  que no lhe permite lembrar-se de maior 
quantidade. Para responder a esta questo, alis fundamental, pode-se fazer o seguinte: aps apresentar, por 
50 m, um conjunto de 12 letras, dispostas em trs fileiras de quatro letras, faz-se soar um som. Conforme seu 
tom mais agudo ou mais grave, o sujeito deve relatar a primeira, segunda ou terceira fileira de letras. O 
interessante  que, neste caso, os sujeitos continuam acertando quase sempre trs ou quatro letras. Como o 
sujeito, antes de ouvir o som indicativo, no sabe qual fileira dever relatar em seguida, tudo indica que ele 
viu (percebeu) trs ou quatro letras de cada fileira. Isto , o sujeito ter percebido praticamente o conjunto 
total de letras. A limitao , portanto, no s da ateno (apreenso dos estmulos), mas tambm da 
capacidade de relembrlos logo em seguida. 
Este tipo de resultado experimental parece sugerir que a percepo em si no  seletiva, mas sim o processo de 
memria (os processos de ar o 
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f e d c b a. 
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quivar o percebido no crebro ou de chamar o percebido de volta). Segundo esta viso, o sistema perceptivo 
processa sempre toda a informao. Mas nem toda informao pode ser arquivada no crebro. Deste modo, 
fica impossvel ao observador relembrar todos os estmulos percebidos. A instruo de prestar ateno 
parece, ento, atuar muito mais sobre a memorizao do que sobre a percepo. 
3.3. Ateno dividida 
Ateno dividida refere-se a certas situaes nas quais o observador presta ateno, simultaneamente, a dois 
ou mais estmulos. Para poder dividir a ateno entre os estmulos,  preciso que estes tenham algo que os 
diferencie. Quanto maior a diferena, mais fcil ser dividir a ateno entre eles. Se forem estmulos visuais, 
podero ter brilho e cores diferentes, localizaes diversas e, o que  mais importante e freqente, contedos, 
isto , significados diferentes. Estmulos auditivos podem originar-se de lugares diferentes, ter diferentes 
intensidades, alturas ou timbres. Tambm podem ter contedos distintos. Naturalmente, tambm existe diviso 
da ateno entre estmulos de modalidades diferentes, como, por exemplo, auditivos e visuais, o que constitui 
uma tarefa bem mais simples para o sujeito. 
Como j foi dito, na viso a ateno a um estmulo  geralmente indicada pela direo do olhar. Isto faz com 
que o estmulo a que se presta ateno caia sobre a fvea dos dois olhos, o que constitui um reflexo. Fica 
difcil, portanto, prestar ateno a estmulos visuais que distam muito entre si. O interessante  que, na viso, 
os dois olhos funcionam conjunta- mente e a integrao de suas imagens proporciona a percepo em terceira 
dimenso. O observador  quase sempre incapaz de dizer qual olho est recebendo a imagem (se forem 
imagens diferentes). A no ser que feche alternadamente um dos olhos, para se certificar das diferenas nas 
imagens. 
Em situaes especficas de laboratrio,  possvel fazer com que os dois olhos funcionem individualmente. 
Estas situaes so conhecidas como situaes de rivalidade binocular. Apresenta-se a cada olho uma imagem 
completamente diferente, como, por exemplo, cores diferentes ou padres de listras horizontais e verticais, 
semelhantes queles ilustrados na figura 3.3. Como o sistema visual no conseguir integrar as duas imagens 
diferentes, para da extrair informao de profundidade, o observador tomar conscincia, alternadamente, de 
cada uma das imagens. A alternao  automtica e prosseguir enquanto o observador olhar para as imagens. 
Pelo menos para o ser humano, esta  uma situao completamente artificial (receber imagens diversas nos 
dois olhos), de laboratrio. Por isso, esta situao no  relevante para a sobrevivncia da espcie humana. 
Conseqentemente, seu sistema visual no est programado para analis-la. No entanto, em animais, como as 
aves, cujos olhos no esto dis Figur 
3.3. Tente sobrepor as duas partes da figura forando seus olhos. Provavelmente voc no ver uma imagem fundida 
formada pela sobreposio das linhas horizontais e verticais, mas sim a alternncia entre os dois padres. Isto ocorre pelo 
fato de os dois padres serem incompatveis para uma fuso binocular. 
postos frontalmente como nos seres humanos, a percepo de imagens completamente diversas  constante. Certamente, 
seu sistema visual est programado para extrair informaes desta situao. 
J na audio, a situao  totalmente outra: apesar de igual integrao entre os estmulos recebidos em cada um dos 
ouvidos, essa integrao  importante para indicar a direo da origem do estmulo acstico. Assim, numa situao de 
estimulao dictica, isto , estmulos diferentes em cada ouvido, o sujeito saber relatar a informao fornecida a cada 
ouvido separadamente. Alm disso, poder concentrar-se, isto , prestar ateno  estimulao recebida em cada ouvido 
separadamente. Uma funo primordial do sistema auditivo  separar a informao que atinge os dois ouvidos. Isto ocorre 
graas a um processo de inibio de um ouvido sobre o outro, processo que  hoje amplamente conhecido. 
Uma srie de experimentos empregando estimulao dictica mostrou ser mais difcil prestar ateno a uma seqncia de 
estmulos apresentada, alternadamente, a cada um dos ouvidos, do que se toda ela fosse apresentada a um s. A funo 
biolgica desta nossa capacidade de prestar ateno  informao proveniente de um s ouvido  exatamente proporcionar-
nos a opo de prestar ateno a estmulos provenientes de uma fonte localizada, em detrimento de outros estmulos. Este 
 o conhecido fenmeno da reunio social (cocktail-party problem). Numa reunio 
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social, podemos estar atentos  conversa de uma pessoa, apesar de inmeras outras falarem ao mesmo tempo, 
inclusive gritando ou falando muito mais prximas de ns. Podemos tambm alterar nosso foco de ateno 
quantas vezes quisermos, apesar da diversa localizao da fonte, onde os estmulos tiveram origem. Este  o 
fator principal. Outros, porm, tambm influenciam nosso comportamento de prestar ateno a estes estmulos. 
Dentre eles, podemos destacar: o timbre (se  uma voz feminina ou masculina) e o contedo (acompanhamos o 
contedo lgico do que est sendo dito). 
O fato de o timbre influenciar a focalizao da nossa ateno auditiva  claramente demonstrado quando 
ouvimos uma orquestra ou uma banda de rock: podemos prestar ateno, por exemplo, somente ao som do 
piano ou da guitarra eltrica, apesar da execuo dos instrumentos de corda ou da marcao da bateria. Numa 
orquestra, todos os sons vm aproximadamente do mesmo lugar; isto se torna mais evidente ainda num toca- 
discos: todos os sons saem de um nico alto-falante. Mesmo assim, podemos prestar ateno unicamente ao 
piano ou  guitarra, guiados pelo seu timbre. De todos os experimentos que utilizam a situao da reunio 
social, fica claro que o participante consegue prestar ateno a uma conversa definida. Ao mesmo tempo, 
perde quase toda informao das conversas paralelas. O curioso  que, no entanto, nem toda informao das 
conversas paralelas  perdida: se, repentinamente, for dito o nome do participante ou alguma outra palavra 
especial (o nome de uma pessoa que ele conhea e na qual esteja especialmente interessado, um palavro 
ou ento um termo de seu esporte preferido), ele toma conscincia disto. Eventualmente, pode alterar seu foco 
de ateno. Portanto, alguma informao das outras conversas  captada, mas no levada  conscincia, a 
menos que tenha um contedo especial (interessante). 
Todo este sistema de ateno parece ter um significado muito grande para a sobrevivncia. Consideramos, por 
exemplo, um animal selvagem na floresta,  escuta: ele precisa ter a capacidade de dirigir sua ateno auditiva 
aos rudos do predador que se aproxima, localiz-los espacialmente e acompanhar cada um destes rudos. Mas, 
ao mesmo tempo, precisa desligar-se dos inmeros rudos normais de uma floresta, como aqueles 
provocados pelo vento nos galhos das rvores ou pelas guas do riacho. A no ser que, repentinamente, 
outro rudo especial denote a presena de outro predador, que agora dever tornar-se o centro da sua 
ateno. 
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